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O desaparecimento de abelhas que vem sendo observado em todo o mundo tem deixado apicultores brasileiros bastante preocupados. O tema foi debatido no II Seminário de Apicultura do Cerrado, em Bonito (MS), de 30 de março a 1º de abril. A programação eclética foi elogiada por apicultores e técnicos presentes. 



Outros temas que chamaram a atenção foram o incremento do turismo rural com atividades ligadas à apicultura – chamado de apiecoturismo -, a mecanização de apiários, o melhoramento genético, a conquista de nichos de mercado com iniciativas como a indicação geográfica do Mel do Pantanal e a gestão da atividade apícola. 



Na verdade, a diversidade de temas e o alto nível das palestras foram destacados por diversos participantes – entre os mais de 300 que compareceram ao Centro de Convenções da cidade. O evento foi realizado pela Feams (Federação de Apicultura e Meliponicultura de Mato Grosso do Sul) e Embrapa Pantanal (Corumbá-MS).



O chefe geral da Embrapa Pantanal, Jorge Lara, e o chefe adjunto de Transferência de Tecnologia, Thiago Coppola, participaram da abertura do seminário. “Todos os eventos que aproximam a Embrapa dos produtores nos trazem uma dupla visão: a visão nossa indo em direção à sociedade e também podemos aprender com os produtores, conhecer suas demandas”, afirmou Jorge.



Para ele, a apicultura se apresenta como uma grande oportunidade para que o Mato Grosso do Sul amplie sua matriz produtiva. Há 15 anos, disse o chefe geral, os produtos apícolas se encontravam em um determinado patamar. “Hoje, após todo esse trabalho feito entre a federação e a Embrapa Pantanal, a gente observa claramente a evolução do setor, que culminou com a indicação geográfica”, afirmou.



Em termos de produtividade, Mato Grosso do Sul ostenta a mais elevada do país, com média de 50 quilos de mel/colmeia/ano, contra 15 quilos/colmeia/ano da média nacional.



Ao final do seminário, foi eleito o novo presidente da Feams, Cláudio Ramires Koch, de Três Lagoas (MS). Ele substitui Gustavo Nadeu Bijos, que esteve à frente da instituição desde junho de 2010.



Sem abelhas, sem alimentos



A campanha Sem Abelhas, Sem Alimentos foi lançada no Brasil e na Ucrânia em 2013 e dois anos depois ganhou o prêmio “ACT Responsible”, em Cannes, na França, no concurso internacional de campanhas de cunhos sociais. Ela foi apresentada no seminário pelo professor Lionel Segui Gonçalves, aposentado da USP (Universidade de São Paulo) de Ribeirão Preto e atual visitante da Ufersa (Universidade Federal Rural do Semi-Árido), em Mossoró (RN). O filho dele, Daniel Malusá Gonçalves também explicou como funciona o aplicativo que tem ajudado a mapear a mortandade de abelhas.



O Bee Alert pode ser usado por qualquer pessoa interessada na causa. Com ele, é possível identificar a localização da ocorrência, registrar as possíveis causas, os danos provocados, o número de colônias atingidas. Lançado há três anos, o aplicativo está fornecendo dados para uma tese de doutorado, orientada por Lionel. Nesse período, já foram registradas 240 ocorrências, com 16 mil colônias eliminadas em 18 Estados brasileiros. “Isso representa um bilhão de abelhas”, afirma Lionel. A situação é mais crítica no Estado de São Paulo, que concentra mais de 50% dos casos.


A principal causa, segundo ele, é o uso indiscriminado de agrotóxicos. Mas há outros fatores que também contribuem para as mortes como, por exemplo, algumas doenças, desmatamento e mudanças climáticas. O professor explica cientificamente o desaparecimento pelo uso de agrotóxicos: “quando a abelha sai da colmeia em busca de alimentos, se o local que ela visita recebeu esses produtos – especialmente os neonicotinoides (inseticidas derivados da nicotina) – ela vai entrar em contato com o agente principal do produto químico, que atua sobre o sistema nervoso das abelhas”, afirmou. Com isso, ocorre um bloqueio no cérebro que afeta a memória, e as abelhas se esquecem de onde vieram, não conseguindo retornar à colônia. “Elas se perdem no campo e desaparecem. Na verdade, elas morrem”, conta Lionel.



A campanha Sem Abelhas, Sem Alimentos tenta alertar as autoridades para a gravidade do problema e os dados levantados por meio do aplicativo poderão subsidiar políticas públicas de proteção às abelhas.





Apiecutorismo




Um tipo de turismo rural com a presença de abelhas e produtos apícolas. Essa é a definição do apicultor Arno Wieringa, do Espírito Santo, que falou sobre o apiecoturismo como opção para aumentar e diversificar a renda na propriedade rural. Segundo ele, trata-se de um mercado que vem se expandindo no Brasil. “A ideia é explicar para o consumidor final como funciona o mundo das abelhas”, disse.



“A abelha às vezes é vista como bicho-papão, porque ela pica, mas a abelha é fundamental para o nosso ecossistema e nossa alimentação do dia a dia”, aponta Arno. Esse tipo de turismo rural, de acordo com o palestrante, começou há cerca de dez anos. Para investir nesse ramo, é preciso que o apicultor se capacite para a atividade turística, porque vai receber desse público uma série de questionamentos. A experiência de Arno no Espírito Santo demonstra como pode ocorrer essa especialização: as mulheres do apiário assumiram o turismo rural e os homens trabalham na produção.



A principal recomendação de Arno para quem quer investir no apiecoturismo é pensar bem antes. É imprescindível que o apicultor tenha perfil para essa nova atividade. “Nem todos têm. É importante que ele visite propriedades que já desenvolvem esse trabalho e conheçam bem antes de investir. Também é preciso ter recursos e tempo”, acrescentou.



Caravanas


Outras palestras também agradaram o público. O pesquisador Vanderlei dos Reis, da Embrapa Pantanal, mostrou como foi o processo para obtenção da IG (Indicação Geográfica) do Mel do Pantanal, que só pode ser produzido nos limites geográficos dessa região determinados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).  Foi a primeira indicação de um mel no Brasil e a primeira da região Centro-Oeste. Trata-se de um produto de alto valor agregado por contribuir para a conservação do bioma.



Armindo Vieira do Nascimento Junior, da Cia da Abelha, de Goiás, fez palestra sobre a gestão de apiários focada no aumento da produtividade. Segundo ele, o apicultor deve ficar de olho em três manejos: a troca periódica da rainha, a troca de favos velhos e a alimentação adequada. “Ele também precisa profissionalizar a gestão do apiário. Tem que conhecer seus custos e quantificar tudo, inclusive a depreciação do material”, afirmou.



Não foi apenas Armindo quem veio de Goiás. Uma caravana com 45 pessoas saiu de Goiânia na véspera e percorreu 1.260 quilômetros até chegar em Bonito. “Na verdade, alguns apicultores que vieram do interior viajaram quase 2.000 quilômetros”, conta Maria Aparecida da Silva. Ela e o marido, Divino José da Silva, apicultor há 30 anos, não perdem esse tipo de evento. 



“A gente é apicultor e está correndo atrás. Está valendo muito a pena, a troca de experiências é sempre boa”, disse ele. No ano passado, Divino e Maria Aparecida estiveram no 21º Congresso Brasileiro de Apicultura em Fortaleza (CE) e pretendem ir no próximo, em 2018, em Joinvile (SC). “Todo mundo quer saber como resolver o problema da mortalidade das abelhas. Isso está afetando toda a cadeia do mel”, afirmou Divino. 



Lucas Santos Lisboa é apicultor iniciante no Tocantins e acompanhava outra caravana. Ele saiu de Gurupi na terça, dia 29 de março, às 4h30, de van. Chegou a Palmas, pegou um voo com escalas em Goiânia, Campinas e Campo Grande. Finalizou o percurso de ônibus, com outros 21 participantes, às 23h.



O jovem está trabalhando com abelhas sem ferrão e conta que foi estimulado a acompanhar o seminário por um colega mais experiente. “Estou gostando demais. Todo dia tem algo diferente. A diversidade de assuntos é o ponto alto do evento”, comentou. O seminário também teve exposição de produtos ligados à apicultura



Fonte: Agrolink
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