0


Autor do artigo:



João Pedro Pereira Winckler. Pesquisador da Clínica do Leite. Zootecnista graduado pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Mestre e Doutorando do Programa Ciência Animal e Pastagens da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (ESALQ/USP).



No artigo anterior, vimos como monitorar e interpretar os resultados das análises de gordura do leite, além de listar os principais fatores que afetam sua concentração. Seguindo sugestões dos leitores, resolvemos dar sequência ao tema e apresentar estratégias nutricionais que podem ser adotadas pelos produtores para aumentar o teor de gordura do leite. Precisamos lembrar, primeiramente, que a gordura do leite é formada nas células epiteliais da glândula mamária, a partir de ácidos graxos. Esses ácidos graxos podem ser originados de três formas:



1) Diretamente dos nutrientes consumidos pela vaca, que passam pelo trato digestivo e chegam na glândula mamária via corrente sanguínea.



2)  A partir dos ácidos produzidos no rúmen – principalmente o ácido acético – e transformados em ácidos graxos.



3) A partir de reservas corporais do animal. Essa forma de síntese de gordura é mais importante no início da lactação, quando a vaca está em balanço energético negativo.



Assim, as três fontes de gordura do leite dependem, direta ou indiretamente, da dieta consumida pelos animais. Portanto, as estratégias nutricionais representam o ponto de partida para aumentar esse componente.



Mas não se engane. Não existe uma fórmula milagrosa para aumentar a gordura do leite – sua quantidade e composição são influenciadas por vários fatores. Para facilitar o entendimento, elegemos seis principais: relação volumoso-concentrado, fibra da dieta, tamanho de partícula, inclusão de tamponantes, fornecimento de óleos e gorduras e a mudança gradativa da dieta.



1) Relação volumoso-concentrado



As características da dieta fornecida aos animais afetam o ambiente ruminal e, consequentemente, a produção de gordura no leite. Observe nas tabelas a seguir em que medida o fornecimento de concentrado e a relação volumoso-concentrado afetam a produção de leite e a teor de gordura no leite.



como aumentar o teor de gordura no leite



Dessa forma, para o equilíbrio entre a produção de leite e a concentração de gordura, recomenda-se que as dietas contenham, no mínimo, 40% de volumosos. Mas, por que a relação entre o volumoso-concentrado afeta o ambiente ruminal e a produção de gordura do leite? Vamos à explicação:



Dois grupos de bactérias encontradas no rúmen das vacas têm papel fundamental nesse processo: as celulolíticas e as amilolíticas, que se destacam pela ação na digestão dos alimentos. As celulolíticas são responsáveis pela fermentação da fibra da dieta e dependem de um pH ótimo (entre 6,0 e 7,0) para o seu crescimento. Caso o pH esteja abaixo dessa faixa, a fermentação das forragens é prejudicada e, consequentemente, ocorre redução na produção de ácido acético, principal precursor da gordura do leite.



As bactérias amilolíticas, por sua vez, são favorecidas por dietas ricas em concentrado. Os principais produtos de fermentação dessas bactérias são o ácido propiônico e o ácido lático, que têm efeito na redução do pH ruminal. Assim, quando o fornecimento de concentrado excede 60% da MS, há intensa fermentação no rúmen, acúmulo desses ácidos e queda acentuada do pH ruminal (< 6,0). Com isso, o teor de gordura do leite também cai.



2) Fibra da dieta    



A quantidade de fibra é essencial para o balanceamento adequado de uma dieta, principalmente quando o objetivo é aumentar o teor de gordura no leite. Entretanto, as fontes de fibra podem exercer funções diferentes no trato digestivo das vacas leiteiras.



A fração fibrosa da planta, classificada como FDN (Fibra Insolúvel em Detergente Neutro) é importante para o adequado funcionamento do rúmen. Entretanto, quando oriunda de concentrados ou de forragens finamente moídas ou peletizadas, tem menor efetividade na ruminação e na manutenção do pH do rúmen, quando comparada à FDN proveniente de forragens mais grosseiras. Por isso, também se trabalha com o conceito de Fibra Fisicamente Efetiva (FDNfe) – fração formada por partículas maiores, que estimulam a ruminação.



Para aumentar a gordura do leite, a recomendação é de que a dieta contenha, no mínimo, de 25% a 33% da MS de FDN e de 14% a 18% de FDNfe. Essa combinação é suficiente para manter a ruminação e a produção de saliva (tamponante) em quantidades ideais e, consequentemente, adequado funcionamento ruminal.



3) Tamanho de partícula



Além de níveis adequados de fibra na dieta, é necessário observar outro fator relacionado ao bom funcionamento do rúmen e à produção da gordura do leite: o processamento dos ingredientes. Isso porque a intensidade do processamento está intimamente relacionada ao tamanho das partículas da dieta e à fermentação ruminal.



A efetividade da fibra em gerar a ruminação tem relação com o tamanho das partículas – normalmente partículas maiores que 8 mm tem efeito sobre a ruminação. No entanto, quando excessivamente grandes, podem causar enchimento físico ruminal, aumento do tempo de digestão e menor consumo. Esses fatores podem causar a redução na produção do leite e também do teor de gordura.



Observando a tabela abaixo, fica evidente a relação entre o tamanho de partícula das rações, produção do leite e concentração de gordura o leite.



teor de gordura no leite - como aumentar?



O tamanho das partículas também afeta a mistura dos ingredientes, sendo que partículas maiores são mais difíceis de homogeneizar. A mistura adequada da dieta é necessária, pois os animais tendem a selecionar alguns ingredientes em detrimento de outros. Essa seleção pode resultar em diferenças entre o que foi formulado e o consumido pelo animal e, consequentemente, afetar a produção de gordura do leite.



4) Inclusão de tamponantes na dieta



A inclusão de tamponantes nas dietas, como o bicarbonato de sódio e o óxido de magnésio, pode favorecer os microrganismos degradadores de fibra, prevenir a acidose e aumentar a gordura do leite. Em dietas de alto concentrado, essa é uma estratégia necessária para manter a digestão de fibras e o aporte dos precursores do leite para a glândula mamária. Recomenda-se que sejam fornecidos na concentração de 1 – 1,5% da MS ou 150 – 200g/vaca/dia.



5) Fornecimento de óleos e gorduras



A inclusão de gordura nas dietas é relativamente comum, especialmente na forma de óleos ou sementes de oleaginosas. Essa estratégia é utilizada para aumentar a densidade energética de forma econômica, especialmente para animais de alta produção.



Considerando que aproximadamente 25% da gordura do leite é sintetizada a partir de ácidos graxos provenientes da dieta, quanto maior for a inclusão de gordura, maior será a produção de gordura do leite. Entretanto, há um limite, pois o fornecimento de níveis maiores que 5 a 6% da MS pode afetar os microrganismos ruminais. Isso acontece porque os ácidos graxos insaturados são tóxicos aos microrganismos ruminais e são capazes de criar uma barreira que dificulta a adesão e a digestão das partículas do alimento. Dessa forma, a digestão dos nutrientes vai ser prejudicada e menor será o aporte de precursores da gordura do leite na glândula mamária. Além disso, a formação de alguns compostos, a partir ácidos graxos insaturados, podem reduzir a gordura do leite.



Fontes de gordura como o caroço de algodão têm menor impacto sobre a saúde do rúmen, devido à digestão mais lenta. Outra alternativa é o fornecimento de gordura protegida, ou seja, não degradada no rúmen – de modo a não ter impacto sobre os microrganismos ruminais. Um exemplo é o óleo de palma.



6) Mudança gradativa na dieta



A mesma dieta deve ser fornecida todos os dias aos animais, pois os microrganismos ruminais levam tempo para se adaptar às mudanças na alimentação. As bactérias que degradam fibra, por exemplo, demoram de quatro a seis semanas para se multiplicar em número suficiente. Por isso, alterações de dieta, quando necessárias, devem ser realizadas de forma gradativa, de modo que os novos ingredientes sejam adicionados pouco a pouco, dando tempo à microbiota ruminal se adaptar. Assim, você observará alterações nos teores de gordura em um prazo de 7 a 21 dias. É preciso ter paciência.



Esperamos que essas estratégias sejam úteis e que você as coloque em prática na sua fazenda, possibilitando, assim, aumentar a gordura do leite produzido e a rentabilidade do seu negócio.



Referências bibliográficas:



GRANT, R. J.; COLENBRANDER, V. F.; MERTENS, D. R. Milk Fat Depression in Dairy Cows: Role of Silage Particle Size. Journal of Dairy Science, v. 73, n. 7, p. 1834-1842, 1990.



MACLEOD, G. K.; GRIEVE, D. G.; MCMILLAN, I. Performance of First Lactation Dairy Cows Fed Complete Rations of Several Ratios of Forage to Concentrate. Journal of Dairy Science, v. 66, n. 8, p. 1668-1674, 1983.



SUTTON, J. D.; MORANT, S. V. A review of the potential of nutrition to modify milk fat and protein. Livestock Production Science, v. 23, n. 3, p. 219-237, 1989.




Fonte: Portal Lácteo
PATROCINADORES
Representações Francesquet
Samaq Comercial de Máquinas
Anuncie Aqui
Metalúrgica Wagner
Wizard
Wizard Teutônia
Futura Imóveis
Digiserv
Alles Gut
Fritz Ordenhadeiras
Portal Atividade Rural 2018
contato@atividaderural.com.br | Fone: (51) 9135-4200